A armadilha do câmbio
Postado em 31/10/2010 às 01:56
O FMI, ao afirmar que o Yuan chinês é uma moeda significativamente subvalorizada, carimbou a China como um país manipulador da taxa de câmbio, arrastando, também, os tigres asiáticos, que atrelaram sua política cambial à da China, como vilões dessa história. Os Estados Unidos respondem a esse movimento com uma política
denominada “Quantitative Easing II”, que recompra títulos de sua dívida de longo prazo (entre 10 a 30 anos), visando irrigar a liquidez de seu mercado, derrubar a taxa de juros dos títulos recomprados, e produzir, de quebra, uma desvalorização do dólar, frente às demais moedas. Mira, com isso, dar competitividade às suas exportações. Esquecem, no entanto, que a competitividade de um país, no plano internacional, é medida pela sua produtividade atrelada à tecnologia e à dimensão de seu mercado, condições que ainda se subordinam às variáveis da macro política econômica e à qualidade da infraestrutura. Não adianta um crescimento vertiginoso, baseado em falsas premissas, pois ele não se sustenta e, ao contribuir para uma instabilidade mundial, funciona como o movimento do bumerangue. Ao importarmos as contradições do câmbio para nossa economia, onde
a poupança nunca precedeu o investimento, percebemos que a ausência de uma cultura tecnológica faz com que a valorização do real frente ao dólar provoque um decréscimo nos lucros e, em contrapartida, o custo do capital se eleve, fenômeno facilmente perceptível através da taxa Selic, provocando um movimento que asfixia nossa
competitividade e afeta nossa capacidade de exportação, tornando-nos reféns do resto do mundo, que aqui aporta seus produtos, disputando o nosso emergente mercado interno. Nesse momento, forma-se uma espiral que imobiliza o investimento em atualização tecnológica pela ausência de capacidade sustentada pelo lucro, provocando ainda um aumento nos custos de produção, inclusive via juros, reduzindo, desta forma, a
capacidade de produção em escala, condizente com um aumento sustentado do PIB. Como consequência perversa, avolumam-se os “déficits” de conta corrente. Por outro lado, o aumento das reservas que o Brasil vem perseguindo tornou-se uma solução muito cara e já abala a crença de que estejamos em regime de livre flutuação. O Brasil emite títulos da dívida pública interna, compra os dólares e os aplica em títulos americanos. O Governo justifica essa montanha de U$280 bilhões, em reservas, com o argumento de que ela responde por 13% do PIB, contra 50% da Suíça, 34% da Coreia do Sul e 40% da China. Só que por lá, o equivalente à nossa taxa Selic, hoje em 10,75% a.a, é irrisório, o que minimiza o custo de carregamento que, no nosso caso, ultrapassa U$35bilhões anuais, se levarmos em conta o diferencial de taxa de juros interna e externa ao custo de equalização, medido pela apreciação do real frente ao dólar. Essa política suicida de depreciação cambial, que hoje assistimos nos quatro cantos do planeta, provoca um perigoso conflito de moedas e compromete a perspectiva de recuperação da economia mundial. Após a eleição, não se iludam: vem chumbo grosso
provocando uma mudança na política de câmbio.
Wagner Gomes