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19 01:10:32/01/2012
Artigo - Para evitar as tragédias
O assunto já não é nem novidade, mas sempre é importante chamar a atenção das autoridades federais, estaduais e municipais para que se faça uma prevenção mínima, evitando-se, assim, que tragédias tenham a proporção que têm nesta época, todos os anos . Estou me referindo às chuvas que assolam principalmente os estados de Minas Gerais, Rio e Espírito Santo. Evidentemente que impedir a ocorrência de fenômenos naturais como água, fogo (este quando resultante de combustão espontânea) é uma tarefa impossível para o homem. Mas prevenir para que sejam minimizados os estragos é possível que o homem o faça. É uma tarefa que tem que ser encabeçada pelos governos, que podem contar com a ajuda da iniciativa privada, desde que ela seja convocada. Os estragos que sofreram cidades do interior e a capital mineira poderiam ser menores se providências viessem sendo adotadas ao longo de cada ano. No entanto, nada disso acontece e, então, ocorrem as tragédias que a gente vê anualmente, ceifando dezenas, às vezes centenas de vida, deixando gente sem moradia , sem nos esquecermos dos enormes prejuízos causados ao comércio e ao setor produtivo. É só lembrar que, há um ano, o país assistiu, penalizado e horrorizado, ao maior estrago já feito por enchentes das chuvas na região serrana do Rio de Janeiro.
Na época, foram anunciadas inúmeras providências e agora se vê que nada do prometido foi feito. Pior, o mundo, e não apenas nós, ficou sabendo que roubaram a pouca verba destinada a reconstruir as cidades. Nesse caso, pelo menos cassaram o prefeito, embora não o tenham prendido nem o obrigado a devolver o que roubou. Agora em Minas – no mês de dezembro, nunca choveu tanto em Belo Horizonte, superando todos os índices anteriores –, a chuva martirizou muitas cidades do interior. E muita coisa poderia ter sido evitada. O governador Antonio Augusto Anastasia, com sua sensibilidade à flor da pele, revelou que não vai deixar de tomar providências durante todo o seu governo para prevenir os problemas. Muita coisa podia ser feita e não foi. As nossas rodovias, por onde a chuva passou, estão intransitáveis.
Na realidade, há muito que o governo federal não faz nada em Minas, por meio do Dnit, e, dessa forma, o estrago é muito maior. Na realidade, nossas rodovias, estaduais e federais (não só aqui, mas em todo o país), com raríssimas exceções, nada mais são do que velhos caminhos de gado e tropa de burros, asfaltados. Melhorar esses caminhos e investir em prevenção são um assunto que a presidente Dilma deveria colocar como uma das prioridades. Prevenir nunca é demais até porque, como ensinava o ex-prefeito de Belo Horizonte, Luis Verano, no final dos anos de 1970, “a pior chuva é sempre a que ainda está por vir”. Para os que não entenderam o recado, prevenção é atividade constante, rotineira e que, no mínimo por economia, deveria ser feita. Afinal, como ensinavam os antigos, prevenir é sempre melhor do que remediar. Somente quando tivermos a coragem de punir civilmente os que, por omissão, causaram prejuízos ao estado e a particulares, pegando-os pelo bolso, é que vamos passar a ter atitudes mais firmes por parte dos governantes.
Mas, até aqui, falamos apenas da ação governamental. Não podemos nos esquecer, no entanto, de que muitos problemas causados pela chuva são provocados pela imprevidência e pela irresponsabilidade do cidadão que deixa de tomar atitudes que cabem a ele primariamente, como, só para ficar no mínimo, jogar lixo nas ruas, causando entupimento de bueiros. Governo não é onipotente e muito menos onipresente até porque, se fosse, todos reclamariam. Portanto, vamos cobrar providência sem nos esquecermos de fazer nossa parte.
08 14:06:16/12/2011
Artigo - Reforma certa
Pelo que se comenta no governo, em pouco mais de um mês a presidente Dilma detona o processo de reforma ministerial. A desculpa – em política é sempre necessária – é a liberação de quem pretende disputar as eleições municipais e, por isso, precisa se desincompatibilizar. Nesta situação, comenta-se, estão três, entre eles Fernando Haddad que Lula tirou da cartola para disputar a prefeitura de São Paulo. Haddad já insinuou que gostaria de sair antes mesmo do prazo da reformona já que, na prática, tem vivido mais a política paulistana do que o dia a dia de seu ministério, o da Educação. Especulação é o principal instrumento da atividade política e, num anunciado processo de reforma de uma equipe ministerial, é o que não falta nas rodas de conversa. Normalmente a maioria delas se confirmam ao longo do processo. É o que a oposição, e até parte da base governista, esperam em relação aos ministros Carlos Lupi, do Trabalho, e Mario Negromonte, das Cidades. Ambos estão precariamente agarrados a seus cargos e se sustentam por uma inexplicável leniência da presidente com o malfeito.
Claro que ela deve ter suas razões para agir desta forma, especialmente em relação a Lupi, mas o problema é que, com certeza, as razões dela não coincidem com os interesses do estado e da população. É neste sentido que a presidente tem que conduzir a reforma de sua equipe. Ninguém quer a formação de um ministério livre de composições, formado apenas por técnicos ou por apolíticos. Natural que partidos que dão sustentação aos governos queiram participar da administração, indicando pessoas. O que se deseja é que estas pessoas tenham competência e probidade para ocupar o cargo. Não é possível que a presidente seja subjugada, obrigada a aceitar qualquer nome para um cargo por ter admitido transformar em feudo partidário um ministério, uma secretaria ou mesmo uma estatal. A primeira ação da presidente deve ser no sentido de acabar com esses feudos. Se não for possível, que ela se imponha politicamente, exigindo o direito de fazer a escolha, nem que entre nomes listados pelo partido. A escolha há de ser dela, até por ser dela os ônus e os bônus de má ou de boa escolha. Neste processo de escolha de novos nomes para a equipe – ao que se comenta os cinco substitutos dos que deixaram o governo este ano estão garantidos – é bom que a presidente Dilma siga ensinamento de uma velha raposa política mineira, o ex-governador Hélio Garcia. Ele dizia sempre que o político não deve nomear quem não poderá demitir. O exemplo está aí, com Carlos Lupi, presidente do PDT, que se mantém no cargo exatamente por comandar a legenda e por ser indicado de Lula. O caso Lupi, aliás, pode ser usado para a discussão de um outro problema. A tal da governabilidade.
Mantém-se um ministro sob a justificativa de que é preciso assegurar a governabilidade com o apoio de seu grupo. Em tese é verdade, mas, na prática, todos sabem que não é bem assim. Os nossos políticos são pragmáticos. Pensam, constantemente nas próximas eleições e, com certeza, não ficariam contra uma presidente bem avaliada por solidariedade a um companheiro de partido desde, é claro, que vislumbre a possibilidade de continuar gozando da benesses governamentais. Ainda aproveitando os ensinamentos de Hélio Garcia, cada parlamentar é líder de si mesmo. A falta de partidos fortes, que representem correntes de pensamento, leva a esse tipo de situação: as negociações políticas se dão sobre interesses pessoais, não programáticos.
A presidente Dilma fará um bem enorme ao Brasil se compreender essa verdade e começar a impor uma nova ordem já nesta mudança de ministros. A governabilidade ela vai assegurar se fizer um bom governo, se tiver aprovação popular. Que o diga Lula, que transformou, só como exemplo, Sarney, Collor e Renan Calheiros, velhos desafetos, inimigos até, em companheiros desde criancinha. Não tivesse Lula a aprovação popular que conseguiu e, certamente, não teria atingido a tal governabilidade. A ordem, presidente, é inversa. Primeiro um bom governo, depois o apoio irrestrito. Infelizmente.
03 15:48:02/11/2011
Artigo - Siderurgia no limite
O Brasil vive um momento de ambiguidade em sua economia. Se de um lado vemos um enorme dinamismo em vários setores – a construção e o agronegócio são bons exemplos disso – em outros, há uma preocupante perda nas condições de operação, seja por estreitamento do mercado, pela concorrência predatória dos produtos importados, seja pela redução das margens operacionais, pela elevação de custos. A siderurgia nacional enfrenta dificuldades nas duas pontas. De um lado, há a concorrência com países como a China, capaz de produzir, segundo o ministro Fernando Pimentel, “tudo a um preço muito mais baixo do que todos”, que tem provocado a queda dos preços do aço, problema agravado com a redução do crescimento mundial, fazendo aumentar o estoque do produto no mercado internacional. Essa concorrência é a, poderíamos chamar assim, de forma direta.
Além de não conseguirmos colocar o aço que produzimos no mercado internacional, ainda enfrentamos a concorrência no mercado interno de um produto que, além de ser produzido a custos menores, ainda chega entre nós através de práticas pouco ortodoxas para dizer o mínimo. Para se ter uma dimensão desse problema, em 2005 a importação direta de aço foi de 756 mil toneladas, chegando a 5,9 milhões de toneladas em 2010. É um crescimento para derrubar qualquer setor. Mas há ainda a concorrência indireta. A avalanche de importações de automóveis, autopeças,máquinas e equipamentos, bens eletrodomésticos e outros produtos com elevado conteúdo em aço é vista hoje como o principal vilão do mercado siderúrgico nacional. Estima-se que a entrada de aço indireto no país via material acabado já roube cerca de 15% a 20% de um mercado que potencialmente seria das usinas locais. Em 2005, esta importação indireta era de 1.409 milhões de toneladas e em 2010 atingiu 4.201 milhões de toneladas. Da concorrência direta a siderurgia nacional tem procurado dar conta, a custo de um enorme esforço que tem reduzido dramaticamente sua margem operacional que hoje está num patamar que inviabiliza a realização de investimentos de ampliação do parque siderúrgico.
Quanto à indireta ele nada pode fazer, pois ela retrata uma preocupante sinalização de desindustrialização, problema que está mascarado pelo dinamismo de outros segmentos. Em pouco tempo vamos descobrir que estamos transferindo para o exterior nossos empregos de melhor qualificação. Há uma clara inversão na determinação dos preços praticados pelo setor. As siderúrgicas já não podem tomar por base os seus custos para, fixarem seus preços. Hoje, tomam os preços de mercado e comprimem seus custos para chegar a este valor, às vezes reduzindo perigosamente suas margens. Esse problema vem se agravando sem que o governo federal aja de uma forma efetiva. Ninguém cobra do governo ações que não são de sua competência. O setor siderúrgico, que fique claro, não quer protecionismos pois, em igualdade de condições, tem competência, tecnologia e experiência gerencial para estar no mercado. Mas fica em desvantagens com seus concorrentes naquilo que escapa ao seu controle e é de competência exclusiva do governo.
Nenhum segmento consegue competir massacrado por uma carga tributária excessiva. Enfrentando guerra fiscal entre estados. Sofrendo com a falta de infraestrutura de transportes- com carências desde rodovias até portos e aeroportos isto sem falar, claro em ferrovias que entre nós inexistem- e de insegurança jurídica pela falta de legislação clara. A capacidade de competição do setor siderúrgico tem limites que extrapolam sua competência. E ela já está muito próxima deste limite. Em algumas situações até já superou. É hora dos governos – em todos os níveis – assumirem suas responsabilidades com um setor que gera milhões de empregos, recolhe bilhões em impostos é que está na origem de nossa história econômica.
05 16:23:22/10/2011
Artigo - Punir o lado podre
Até onde irá esta discussão, lavagem de roupa suja, envolvendo todos os níveis de nosso Judiciário é a dúvida que atormenta. Nada pior para um poder do que o debate público entre seus comandantes sobre as suas mazelas. Não há razões para disputas entre pessoas e entidades. Há motivos, sim, para que todos se unam, numa grande reflexão sobre o que disse a ministra Eliana Calmon, corregedora do Conselho Nacional de Justiça. Vá lá que ela tenha dito o que disse em defesa do CNJ, ameaçado de perder talvez a única função que justifique sua existência, a de julgar e punir os magistrados que, por diferentes formas, cometem crimes simples, irregularidades. Para muitos ela exagerou nos termos de sua defesa. Que seja. Mas ela não disse nenhuma inverdade. Pode ter chocado alguns a crueza de suas expressões, mas não se pode negar, como afirmou a ministra, que existam “bandidos protegidos pela toga”.
E por que não haveria bandidos – em todos os sentidos que a palavra tem na linguagem popular – no Judiciário? Por acaso ele é um poder imune à infiltração de pessoas com desvios de caráter? Não, o Judiciário é, como os demais, composto por pessoas e, portanto, sujeito a erros da natureza humana. Corrupção e corruptos existem em todo tecido social e nosso Judiciário não pode se considerar diferente. Que não se faça disto um drama. É preciso ser realista e ver que esse não é um problema apenas brasileiro. Corruptos e corruptores existem em todo mundo, em todos os segmentos sociais. O que nos torna diferentes de vários países – normalmente mais desenvolvidos – e iguais a outros tantos, normalmente mais atrasados, é a impunidade. Filha dileta de nossa sociedade, a impunidade (já disse isto várias vezes, inclusive neste espaço) é nosso grande mal, pois garante a ação dos corruptos e estimulam o surgimento de outros que têm alguma tendência a desvios.
O fim dessa impunidade desmedida é que deveria estar preocupando nossas autoridades, inclusive ao senhor presidente do Supremo, Cezar Peluso. Rebater ou defender o que disse a ministra Eliana não ajuda em nada. Em quê afinal incomoda tanto a retirada da máscara? Não deveria incomodar mais a presença dos “bandidos sob toga” de que fala a ministra? E queiram ou não, admitam ou não entidades e excelências, eles existem e não são poucos. Basta acompanhar o noticiário e analisar os relatórios de corregedorias de todos os estados. Diante da realidade, a solução é agir. Esse bate-boca entre autoridades é muito ruim para a instituição, para o país. O Judiciário precisa ter uma outra postura, tratar com mais discrição suas mazelas. Mais que qualquer outro poder, ele precisa ter uma aura de seriedade, manter certa distância das discussões menores.
Precisa muito ser, e muito parecer, correto, justo. Afinal, é ele o aplicador da lei, a instância final dos que se sentem agredidos e prejudicados, seja pelo estado, seja por seus pares. Para cumprir suas funções, o Judiciário precisa ser respeitado. Respeito se conquista com conduta diferenciada. A começar pela coragem de enfrentar o fato de não ser em nada diferente dos demais poderes em sua composição. Tem uma imensa maioria de membros sérios, mas tem, sim, minoria capaz de malfeitos.
É necessário, portanto, que, urgentemente, o Judiciário se torne diferente. Tem que agir rápido, punindo e extirpando seu lado podre. Mas punindo mesmo. Não será mandando para a cadeia os malfeitores dos outros, e punindo com aposentadoria compulsória seus malfeitores. Os sérios deveriam exigir seriedade. A sociedade, o comum dos mortais, agradeceriam.
20 18:00:07/09/2011
Artigo - Poder da Justiça
Relendo, alguns anos após a primeira leitura, senti o quanto é atual o discurso de Rui Barbosa mais de 90 anos após ser proferido. Oração aos Moços, discurso escrito por ele e lido por um amigo, em solenidade de formatura da turma do curso de direito da Faculdade do Largo de São Francisco, em 1920, deveria ser leitura obrigatória de todos os estudantes. Impressionante como as obras-primas permanecem atuais. Na conversa franca com os estudantes que paraninfou, Rui Barbosa lhes diz coisas que podem perfeitamente ser aplicadas ao Brasil de hoje, onde a Justiça, por razões diversas, não tem cumprido seu papel, frustrando os que a procuram, seja pela demora nas respostas, seja em suas decisões que bem caracterizam o nenhum ânimo de buscar e interpretar (ou seria incompetência mesmo) e a opção pelo conforto da simples aplicação do texto legal.
Como não ver o Brasil de hoje na afirmativa “mas justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta. Porque a dilação ilegal nas mãos do julgador contraria o direito escrito das partes, e, assim as lesa no patrimônio, honra e liberdade. Os juízes tardinheiros são culpados, que a lassidão comum vai tolerando. Mas sua culpa tresdobra com a terrível agravante de que o lesado não tem meio de reagir contra o delinquente poderoso. Em cujas mãos jaz a sorte do litígio pendente.” Nada, infelizmente, tão atual, 90 anos após ter sido dito. Fosse apenas a crônica lentidão de nossa Justiça o único problema enfrentado pelos brasileiros, em especial os mais pobres, em litígio, já seria muito. Pior é que há ainda a submissão dos julgadores aos interesses dos mais poderosos.
Seja ao estado, seja ao poder econômico. Seu conselho aos estudantes que sonhavam com a magistratura foi para que não se misturassem aos togados “que contraíram a doença de achar sempre razão ao estado, ao governo, à fazenda; por onde os condecora o povo com o título de fazendeiros. Esta presunção de terem, de ordinário, razão contra o resto do mundo, nenhuma lei reconhece... Antes, se admissível fosse aí qualquer presunção, havia de ser em sentido contrário; pois essas entidades são as mais irresponsáveis...”
É um retrato colorido do país, hoje, onde o Judiciário tem se prestado ao papel de ora se deixar levar pelo clamor público – algumas poucas vezes –, ora se submetendo aos interesse dos poderosos – na maioria das vezes deixando de lado a inteligência dos textos legais, para se agarrar à frieza dos textos. O quê se assiste hoje e que lamentavelmente Rui Barbosa também assistiu, nos anos iniciais do século 20, é a um Poder Judiciário, última esperança dos que são vítimas do Executivo, do Legislativo e do poder, seja ele da força física, seja do dinheiro, incapaz de dar as respostas com rapidez e, pior, com altivez.
Claro que não se pode generalizar. Há as exceções. Mas há também os que se ajoelham e que usam o poder que lhes foi conferido para promover injustiça. Para negar ou não reconhecer direitos elementares do homem, como até mesmo o direito à informação, consagrado constitucionalmente. Quantos criminosos, usurpadores do erário e dos bens públicos encontram proteção no também constitucional princípio da presunção da inocência. Como são muitos os tardinheiros de que falava Rui Barbosa, raros são os que perdem essa presunção, pois entre nós os processos nunca chegam ao fim. Não me tomem, pois, como intransigente, radical, quando, insistentemente, digo que nossos problemas estão na impunidade. Não é uma visão solitária. Antes, é uma posição compartilhada por muitos. Rui Barbosa, por exemplo.
08 00:52:52/09/2011
Artigo - Revolução no ensino
Já não é mais possível protelar, não mudanças, mas uma revolução na educação brasileira. Estamos muito atrasados nestas mudanças. As escolas públicas em todos os níveis, mas especialmente do ensino fundamental e médio, ainda funcionam no que antigamente se definia como saliva e giz. É o professor falando e escrevendo no quadro negro, numa aula sem atrativos, incapaz de motivar os alunos da era da tecnologia. Esta revolução de que necessitamos não se restringe, porém, à questão pedagógica. É muito mais profunda e, para acontecer, precisamos mudar conceitos. A começar pelo de escola pública. Escola pública é aquela que pertence à sociedade, não ao estado. A diferença está no fato de que, no seu funcionamento, deve participar também cada um de nós, mesmo os que não têm filhos estudando nelas.
A sociedade precisa zelar por sua escola. Precisa entender, primeiro, que a construção de uma unidade escolar não é favor de ninguém. Quantas vezes cada um de nós já viu espalhadas pelas ruas faixas agradecendo este ou aquele governante, deputado, vereador, pela construção ou reforma de uma escola. Claro que não são colocadas pela comunidade. Quem as coloca são os que têm o nome nelas, mas o cidadão aceita e, não raras vezes, agradece com o voto a quem não está fazendo nada mais do que cumprir com sua obrigação. Ao não se apropriar da escola, procurando acompanhar o seu funcionamento no dia a dia, o cidadão deixa de cobrar a qualidade do que ela oferece a seus filhos.
Não temos o hábito de cobrar qualidade. Tendo a vaga está ótimo para a maioria da população que considera a escola não como local de aprendizagem, mas como estacionamento de crianças e jovens enquanto os pais vão à luta. Para cobrarmos qualidade é preciso quebrar outro mito. Professor não é herói, não é apenas um abnegado que está ali se sacrificando para ensinar e educar nossos filhos. Não, definitivamente não é isto. O professor é um profissional como outro qualquer que precisa, como todos nós, receber salário digno. Ótimo. Este é um lado da moeda. O salário é a contraprestação de um serviço prestado. E este serviço tem que ser de qualidade, independentemente do que o profissional recebe. Ainda mais se pelo que presta é regiamente remunerado. E aí esbarramos num ponto que ninguém tem coragem de enfrentar abertamente. Nossos professores são mal preparados. Vivemos o pior dos mundos na educação, onde quem deveria ensinar não sabe nem para si. Basta ver as faixas ostentadas por professores em suas manifestações. Há erros gritantes de grafia. Se é assim que o professor sabe, é assim que ele ensina, é assim que o aluno aprende. É preciso encarar esta realidade.
Nossa educação básica é ruim, por um lado pelo descaso do governo, que não procura modernizar o ensino, oferecendo meios para que os alunos da rede pública tenham pelo menos a mesma condição de aprendizagem dos alunos da rede privada. Pelo descaso governamental em oferecer bons salários e condições de trabalho aos professores. Esses, por sua vez, precisam ter a consciência de que, em sua maioria, estão despreparados para o exercício da profissão que escolheram. Na questão da educação não tem quem possa ser absolvido. Estado, sociedade e professores estão errados. Sem que se conscientizem disso, não iremos a lugar algum. É urgente que se sentem todos para discutir e encontrar uma solução.
Para isso, o estado tem que abandonar o discurso de que não há recursos. Os professores de acharem que a solução do ensino está em grandes reajustes salariais – como se fosse possível apenas com bons salários tornarem-se bons mestres o que não sabem para ensinar – e finalmente a sociedade que está na obrigação de assumir seu papel de acompanhar e cobrar qualidade no ensino público. Sem isso nada vai mudar. Vamos continuar sendo um país de analfabetos, inclusive funcionais. Teremos, sim, alguns poucos mestres e doutores, como querem o ministro Fernando Haddad e outros membros do governo, para apresentar no exterior a evolução de nosso ensino. Mas nos faltará o profissional qualificado para levar adiante o nosso crescimento. Bons profissionais começam a ser forjados lá na base, nos primeiros anos de escola, exatamente onde estão nossas maiores deficiências.
24 12:29:13/08/2011
Artigo - Economês de todos os dias
Vamos, a cada crise, incorporando palavras ao nosso vocabulário do dia a dia. Crash, que está aí desde a grande crise de 1929, quando as Bolsas quebraram pelo mundo. Subprime, da crise de 2008. Alavancados, também de 2008 e a volatilidade de agora. Há ainda expressões como quebra contábil e sigla, como Opep, responsável pela crise do petróleo nos anos de 1980. Um emaranhado de palavras, conceitos, siglas e expressões do economês nosso de todos os dias que assustam, pois associados à crise, desemprego, desespero.
Agora vamos vivendo outra que, dizem os especialistas, é uma espécie de subproduto da anterior. A de lá foi pela chamada alavancagem do crédito que fez muita gente gastar o que não tinha e, depois, ficar sem ter como pagar. A de agora é também por excesso de gastos. Só que de governos que andaram derramando dinheiro, na anterior, para salvar pessoas e instituições. Agora os países andam com dificuldades de honrar seus compromissos com os credores. Investidores que entram no arriscado jogo da aplicação em quem paga mais de juros. Arriscam para ganhar, mas querem ser protegidos quando há riscos de perder. Querem o lucro do risco para si, mas cobram a socialização de um possível prejuízo. E, para isto, não se importam em causar pânico e prejuízos aos que não têm como se proteger.
Visão simplista de um problema complexo, dirão alguns de pensamento econômico mais elaborado. Pode ser, mas, se não é inteiramente verdadeira, está bem próxima da realidade. No início dos anos de 1980, no governo Figueiredo, vivíamos o repique da crise do petróleo da década anterior. Num almoço em Brasília com o ministro da Indústria e Comércio, João Camilo Pena, mineiro de sólidos conhecimentos em economia, perguntei-lhe sobre a crise. Ele, didaticamente, explicou-me a situação, ressalvando, como fiz acima, que alguns poderiam achar simplista, até simplória sua visão. Disse-me então, com toda convicção que sua vivência e seus conhecimentos permitiam, que crises não surgem. São fabricadas pelos que dela têm como ganhar. Nelas, óbvio, há os que ganham e os que perdem. Mais, frisou que as crises são cíclicas e inevitáveis. E ainda, sempre maiores do que as anteriores por uma única razão: o mundo estará sempre maior em cada uma delas. E, desde então, o que tenho acompanhado confirma o que ouvi.
A economia é viva, dinâmica, pulsa, e, naturalmente, tem seus soluços. São deles que os especuladores se aproveitam. Amplificam suas consequências para tirar vantagens, lucrar. É preciso compreender isto. É preciso respeitar os espasmos naturais de uma economia que está em expansão em praticamente todos os países, salvo exceções que devem envergonhar a humanidade. Mas não se pode ter medo deles, transformá-los em crise. Pelo ideograma chinês, e você já deve ter ouvido sobre isto milhares de vezes, crise representa risco [perigo] e oportunidade ao mesmo tempo. É, então, uma questão de saber aproveitar o momento. Temos um exemplo claro disto. Foi pela crise do petróleo nos anos 1970, quando os países produtores descobriram que poderiam usar o produto praticamente como arma de guerra, multiplicando várias vezes o seu preço, que o Brasil criou o Proálcool.
Hoje ele é o mais bem-sucedido programa de substituição em larga escala do petróleo de todo o mundo. Ousamos sozinhos à época e criamos nossa própria tecnologia. É hora de ousar novamente. Criarmos nossas próprias soluções para as crises anunciadas pelas Cassandras de sempre. Trabalho é a solução para as crises. Trabalho sério para evitarmos dar causas a elas, como por exemplo, tem feito o governo federal, gastando mal seus recursos. Trabalho duro e confiança para não sermos atropelados pelas crises geradas fora de nossas fronteiras.
15 13:20:31/08/2011
Artigo - Praga brasileira
A frase é de autor desconhecido e está aí desde o século 19: “Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil”. Tantos anos depois, as saúvas, formigas cortadeiras, estão aí e, mesmo assim, o país avança, produz como nunca e assume seu papel de celeiro do mundo, um dos muitos clichês ufanistas sobre nosso potencial econômico. Assim como a saúva nos anos passados foi uma praga, a corrupção também é uma praga brasileira que, desde tempos imemoriais, vem atrapalhando nosso desenvolvimento. Corrupção em todas as suas formas, desde o superfaturamento de obras, até a produção de leis que criam privilégios que ora causam explosão de gastos, ora beneficiam setores em detrimento do desenvolvimento do país. Somos, dizem os mais indignados, aqueles que têm a corrupção no DNA.
Não é bem assim. Em qualquer parte do mundo as pessoas são tentadas a buscar vantagens pessoais e, se encontram campo para tal, avançam até o limite dos riscos pessoais. Entre nós não é diferente quanto a tentação de auferir vantagens ilícitas, de qualquer dimensão. O que nos diferencia dos tantos outros países, e nos iguala a muitos outros também, é amplitude de nossos limites. Não há freios, o que acaba estimulando até os menos ousados a cometerem as ilicitudes. É preciso colocar um freio e isso começa pela identificação do tipo de corrupção que é praticada. Se é roubo, suborno, nepotismo, favorecimento ou qualquer outra forma. Sua frequência e quem são os corruptos e os corruptores. Um trabalho de inteligência que, necessariamente, precisa terminar em punição. Sem a penalização é impossível colocar limites a esta prática. Esta parece ser a disposição da presidente Dilma. Já deu mostras disto ao demitir sumariamente mais de 20 servidores do Ministério dos Transportes. A rapidez com que agiu deixa claro que ela já conhecia o histórico de devassidão no órgão. Com as demissões, conquistou o apoio popular para levar adiante o que precisa ser feito: apurar e punir.
Razões para punir ela sabe que tem. Precisa agir. Erram os que pensam que a presidente não tem essa disposição. Os mais próximos garantem que ela é intolerante com as práticas de ilegalidades institucionalizadas no país. Sabe com razoável certeza onde os problemas são mais graves e vai agir. E quer fazer isso de forma discreta, mas rapidamente para passar a impressão de que anda a reboque das denúncias na imprensa. Dilma sabe porém que, em política, o tempo de agir é diferente. A base de apoio que sustenta seu governo foi construída não por critério ideológico, mas como resultado da soma de interesses pessoais. Não tem solidez. Nem no PMDB, parceiro de chapa, ela pode confiar. Recebeu a base pronta e, como quem troca um pneu com o carro em movimento, precisa reconstruí-la, ou reorganizá-la sem parar o governo. Agir, mesmo que a contragosto, como algodão entre cristais, contornando e controlando interesses antagônicos num mesmo espaço.
Dilma sabe que está num momento complicado de seu governo. Há sim uma herança maldita do governo Lula, fruto do excesso de gastos no final do ano passado que exige rearrumação nas finanças públicas. Nos mesmos moldes que o governador Anastasia está sendo obrigado a realizar em Minas e outros governadores em seus estados. A contenção de gastos exige sacrifícios de todos e nem sempre há compreensão dos aliados de última hora e, claro, das oposições que se aproveitam do descontentamento para engrossar o tom dos discursos. Estes momentos de dificuldades precisam ser contornados com muita habilidade o que a presidente está aprendendo a ter. Vai adquirindo as horas de voo necessárias a quem tem a responsabilidade de pilotar um avião, como é um governo, em zona de turbulência. Não duvidem. A presidente está fazendo as correções de rota que precisam, e isso inclui retirar do governo quem não deveria nem ter entrado, seja por incompetência, seja por falta de condições morais. Podem apostar nisso.
20 00:49:43/07/2011
Artigo - Jovens lideranças
Tem razão o presidente da Fiemg, Olavo Machado, quando defende a necessidade de que os jovens sejam mobilizados para que comecem, desde já, a se planejar e se prepar para assumirem o comando do país. É preciso mesmo que as pessoas com responsabilidade de liderança na sociedade cuidem de um movimento de renovação, despertando nos jovens o interesse pela atividade política, não necessariamente partidária, de participação nos destinos do país. O presidente Olavo Machado é um homem que viveu sua juventude durante o período de efervescência política no país.
Os movimentos estudantis e sindicais eram forjadores de lideranças de todos os matizes. Acabar com essas verdadeiras escolas de formação política e de preparo de lideranças talvez tenha sido o maior pecado cometido pelo regime militar. A repressão, a transformação dos diretórios estudantis em grêmios literários e o aniquilamento dos sindicatos e suas lideranças, algumas, como nos movimentos estudantis, assassinadas, teve o efeito do fechamento das verdadeiras escolas de lideranças plurais. O ressurgimento desses movimentos à luz do sol, só foi ocorrer já na fase da distensão de Geisel e da abertura de Figueiredo. Mas já aí com o vício da partidarização.
Os grupos que dominaram as entidades estudantis e os sindicatos já não ofereciam o espaço plural, por onde se espera que transitem todas as lideranças classistas. Esse discurso único, ideológico às vezes, cooptado quase sempre, afastou muitos jovens, e nem tão jovens, desses movimentos. E em política, seja ela em qualquer nível, não existe cadeira vaga. Onde não existir uma boa liderança, surgirá uma de má qualidade. Ulysses Guimarães já dizia isso lá nos idos dos anos 1980, quando alguém criticava a qualidade da representação popular e o desempenho da Câmara. Com sua sabedoria, respondia: ”Se você está achando ruim esta Câmara, espere para ver a outra”. Desde então, é isso o que ocorre. As renovações quase sempre são para piorar a qualidade.
Piorar em todos os sentidos, inclusive, e talvez principalmente, no aspecto ético. A imunidade que o mandato parlamentar garante é um atrativo para muitos. A manutenção do poder por alguns grupos e a baixa renovação explicam, em grande parte, a falta de reforma política, “a mãe de todas as reformas”. Ninguém quer perder privilégios. Daí a esperança que muitos, como Olavo Machado, depositam nos jovens. Precisamos de uma verdadeira revolução no país. Não a dos sonhos da geração de 1960, mas uma revolução silenciosa, gradativa, com a eleição de pessoas comprometidas com o país.
É urgente que se tire os mais jovens do estado de letargia em que se encontram, estimulá-los à participação, ensinando-lhes que durante toda a nossa vida vivemos e respiramos política. Daí porque todos nós precisamos nos preparar para ela. Por isso, a importância de iniciativas como a Fiemg-Jovem ou o Instituto de Estudos Empresariais (IEE), que se dedicam à formação de jovens lideranças. São experiências vitoriosas que precisam ser estimuladas e estendidas a outras camadas sociais para que, no mais curto período de tempo possível, consigamos promover a nossa renovação política, com representantes legítimos, lideranças forjadas nas lutas em defesa dos interesses do país, em entidades onde se permita o pensamento plural, sem a ditadura do pensamento único.
Que os jovens entendam a importância do engajamento e que as falsas lideranças, carcomidas pelas velhas práticas políticas, compreendam que a renovação é necessária e que a vida pública não é uma atividade, um bem, que se possa relacionar num testamento. Que venha a renovação de qualidade! Com jovens, como a ex-presidente do IEE, Sílvia Araujo, e o atual presidente, Daniel Katz, Evandro Negrão de Lima Filho, Luiz Fernando Porto, Leandro Costa, Bruno Vicintin, Márcio Ladeira, João Marcelo Machado, Bernardo Vasconcelos, Pablo César (Pablito), Bernardo Lobato, Fernando Drummond, João Vitor Xavier, Cristiano Parreiras, Léo Dias, Cristiano Carneiro, Eugênio Andrade, Walace Soares, João Marcelo Machado, André Skaf, Henrique Alves Pinto, Paulinho César Santiago, Luis Felipe Procópio de Carvalho, entre tantos.
30 14:58:30/06/2011
Artigo - Overbooking na política
Existe uma máxima na política que diz não existir cadeira vaga no poder. Se o seu legítimo dono não a ocupar, alguém, mesmo sem legitimidade, o fará. Bem, mas o que estamos assistindo hoje no Brasil não são cadeiras vagas. São cadeiras ocupadas por duas pessoas ao mesmo tempo. Gente que, diretamente ou por meio de prepostos, não desencarnou do poder e que tem a mesma ou até mais força de mando do que o titular legal do cargo. Não são eminências pardas de governos, aquele que tem presença e força discreta, mas que comandam ou dividem comando. São, se me dão licença da criação de uma expressão, ghost ruler que numa tradução até livre demais chamaríamos de governante fantasma, aquele que divide a cadeira. Destes o exemplo mais clássico é Lula. Ele mesmo reconhece não ter conseguido ainda desencarnar da Presidência e a tem exercido sistematicamente.
O ex-presidente se dá ao direito de dar pito em ministros e de ditar normas de comportamento para parlamentares que nem são de seu partido, onde, diga-se, exerce uma liderança pessoal incontestável. Sua presença no caso da crise Palocci foi tão ostensiva que a muitos passou a nítida impressão de que agia em interesse próprio, protegendo alguém que detém informações perigosas para o grupo. Sua ação pode ter ajudado a controlar a crise interna, e certamente ajudou, mas colocou em risco a autoridade da presidente Dilma, exposta politicamente como alguém que precisa de ajuda para resolver problemas. Foi tão forte esta imagem na sociedade que a presidente se viu na obrigação de reagir e, mesmo que tenha sido a contragosto, demitir Palocci. Aproveitou para fazer outra mudança, formando com Gleisi e Ideli, o clube das poderosas. Se isto serviu para retirar o ghost de sua cadeira, só o tempo dirá. Mas o certo é que, pelo menos aparentemente, ela fez o que o governador Anastasia anda necessitando fazer também.
É nítida a presença do senador Aécio Neves na máquina administrativa mineira através de nomes que indicou. Muitos competentes, reconheçamos, e que têm bom entrosamento com o governador Anastasia. Mas há casos, no campo das escolhas políticas feitas em função de projetos eleitorais futuros, que são gritantes. São pessoas que, por se julgarem ultraprotegidas pelo padrinho senador, agem quase que por conta própria, ultrapassando o limite do razoável e gerando insatisfação política com o governo.
Uma insatisfação latente, mas que, aqui e ali, já começa a se exteriorizar. Fico nestes dois exemplos, mas outros, com certeza, existirão por aí. E ele nos leva a uma reflexão sobre a questão eleitoral. Tanto Dilma quanto Anastasia são políticos que estrearam nas urnas disputando cargos do topo da hierarquia política pelas mãos de seus padrinhos. Sem esse apadrinhamento, com certeza, não teriam chegado aonde chegaram o que, no entanto, não os obrigam a ceder espaços a mais do que o necessário para o governo se afirmar como de continuação. Ao apadrinhado não se pode cobrar subordinação. Até porque o ato do padrinho é resultado da confiança que o apadrinhado inspira e da competência que ele apresenta.
Ninguém vai colocar a mão sobre os ombros de alguém e sair com ele pedindo voto se não tiver certeza da competência do afilhado. O fracasso do afilhado recai sobre os ombros do padrinho, normalmente mais largos. Que o diga Maluf em relação a Celso Pitta.
15 17:58:22/06/2011
Artigo - Erva daninha
Não podemos continuar caminhando aos sustos. O Brasil é um país grande demais, importante demais dentro do contexto econômico mundial para, ciclicamente, atravessar tensões e ameaças de paralisação ou retrocessos, invariavelmente, por problemas e corrupção. Que seja dado um basta nisso urgentemente, sob pena de atrasarmos indefinidamente o nosso desenvolvimento.
Não precisamos retroceder muito em nossa história para vermos como são rotineiros os escândalos em nossa política. Da redemocratização para cá. Nenhum governo deixou de ter seu caso. Alguns, vários deles, como Sarney e Fernando Collor, o único de nossa história a perder o cargo por envolvimento com corrupção. Lamentavelmente o tempo se encarregou de mostrar que ele e seu grupo eram apenas amadores, se comparados com os casos que envergonharem o país nos governos Fernando Henrique e Lula e agora Dilma, com o episodio Palocci, que demorou a cortar.
O único que passou mais um menos ileso foi Itamar que, assim mesmo, foi obrigado a afastar ministros enquanto denúncias eram apuradas. O problema é que nós, a sociedade, não se dá conta de quanto prejudica o país. Não se trata apenas do dinheiro que eventualmente se desvia. Talvez esta seja a perda menor. O grande mal é a desconfiança que estes escândalos provocam. Criam insegurança, paralisando ou postergam negócios que poderiam estar gerando empregos, impostos, desenvolvimento.
Não há empresário que resista a um ambiente de desconfiança. Nosso empresariado já deu muitas demonstrações de capacidade. Temos, na verdade, uma elite empresarial com muito mais qualidade do que a burocracia do estado. A iniciativa privada respondendo com uma impressionante rapidez aos desafios que lhe são colocados. Mas precisa de tranqüilidade para trabalhar. Os recorrentes soluços políticos, o horizonte de crise sempre à vista assustam e afastam investimentos e investidores.
Em qualquer pesquisa que se faça sobre a percepção da corrupção, o Brasil aparece entre os de pior avaliação. Abaixo de muitos países de economia, várias vezes menor do que a nossa.Corrupção existe em todos os países, dirão alguns. É verdade. O problema é que aqui entre nós, ela está associada a uma outra prática bem brasileira, como sempre falo, que é a impunidade.
Uma verdadeira erva daninha que acompanha o país desde seus primórdios. Um problema sem solução no horizonte, pois não existe a chamada vontade política para se acabar com ela. Daí se explica os casos de reincidência específica, como de Palocci. Fosse o Brasil um país sério, e ele estaria atrás das grades e ainda pagando uma gorda indenização aos verdadeiros consultores, todos atingidos em sua honra por ele ter se apresentado como tal.
É hora de todos nós abraçarmos a bandeira do basta. Chega de soluços, de sustos. O país precisa de tranquilidade e honestidade para crescer de forma sustentável, por um longo período. Ainda há milhões de brasileiros para serem realmente tirados da pobreza.
01 09:13:00/06/2011
Artigo - Sempre na última hora
Está no artigo 16 da Constituição Federal que uma lei, para alterar um processo eleitoral, precisa estar em vigor um ano antes da disputa que for regulamentar. Isto significa que, para a disputa de 2012, já estamos atrasados. A lei que valerá para as eleições municipais tem que estar pronta até o final de setembro. E até aqui nada, absolutamente nada se fez, para o cumprimento deste prazo. Estamos discutindo o macro, uma grande mudança política que ninguém, com um mínimo de seriedade, acredita que será feita na profundidade necessária, tais são os interesses envolvidos. Vamos estendendo esta conversa sem fim, vendo o prazo fatal se aproximando, e nada. Estamos entrando em junho. É bom lembrar que este é o mês dos forrós, das festas dos padroeiros no Nordeste, que praticamente paralisam o Congresso. São muito devotos nossos parlamentares que perdem qualquer votação para irem rezar e se esfregarem com suas bases no Nordeste, mesmo que sejam representantes do Sul. A perspectiva é a de sempre. Vão empurrar com a barriga a questão eleitoral até que o Tribunal Superior Eleitoral, que têm prazos a respeitar e cumprir, edite as normas da disputa municipal.
O roteiro segue como todos conhecem: editadas as normas surgem o choro e as acusações de que está ocorrendo a judicialização do processo eleitoral, com o TSE tomando o espaço do Congresso. Não tem sido outro o comportamento de nossos parlamentares. Há muito que se transformaram apenas em homologadores de decisões dos outros Poderes. Basta uma olhada na pauta do Senado, da Câmara Federal, das Assembleias Estaduais e das milhares de Câmaras Municipais. Raramente se encontram nelas projetos de iniciativa de parlamentares. Invariavelmente os mais importantes são de autoria do Executivo. Na realidade é cômoda esta situação. Os parlamentares não se comprometem, omitem-se e, dando certo, aparecem como apoiadores sem os quais nada aconteceria. Se der errado, culpa do Executivo que sufoca o Legislativo com suas MPs, leis delegadas, impedindo a representação popular blablabá, blablabá... É preciso que a sociedade reaja. Que enquadre cada ator dentro de seu papel. Que o Legislativo trate logo de definir e votar as regras eleitorais das próximas eleições. Regras claras são fundamentais para a mudança na qualidade de nossa representação política. O Judiciário, por sua vez, precisa assumir com clareza o seu papel. Não pode acomodar-se como auxiliar do Legislativo, editando as normas para suprir vazios sem, no entanto, cumprir seu papel quando há necessidade.
Em questão eleitoral, pois é disto que falamos aqui, o Judiciário é muito lento em suas decisões. Mandatos ilegítimos são cumpridos integralmente enquanto a Justiça Eleitoral não toma uma decisão final. A zona de conforto da Justiça está lá no artigo 5º de nossa Constituição. Em nome do direito individual se concede liminar para tudo, privilegiando a precariedade da representação em detrimento do interesse coletivo. Pelo que envolve de interesse coletivo, os processos envolvendo candidaturas, mandatos enfim, representação, deveriam ter julgamento rápido, sem tantos recursos. A Lei da Ficha Limpa é um bom exemplo. Ainda não temos uma decisão clara, insofismável sobre sua validade em 2012. Isto também precisa estar definido até o final de setembro, mas ninguém se dispõe a resolver.
Vamos deixar para resolver na última hora, gerando a insegurança jurídica, brecha pela qual os mal-intencionados se mantêm na vida pública. Se de fato queremos mudanças, a hora de começar é agora. As próximas eleições precisam ser disputas dentro de regras claras, tirando a possibilidade dos maus usarem das sombras das leis. O prazo final está próximo. Não há mais tempo para a inércia.
18 11:28:27/05/2011
Artigo - Pesadelo inflacionário
A luta contra a inflação ao que parece é uma da metas da presidente Dilma Rousseff e toda a equipe econômica. Dificilmente deixaremos de chegar o ano com índice inflacionário acima da meta de 4,5%, com uma flexibilização de dois pontos a mais. O centro da meta está estourado e os sinais são de que também flexibilidade será batida. Se providências não forem adotadas poderíamos perder o o controle da situação. Mas a presidente Dilma está em cima do ministro Mantega para que controle a inflação. Quem está acima dos 30, ou 40, sabe o que provoca a inflação. Durante décadas o Brasil conviveu com este imposto perverso, o que mais atinge as classes de menor renda, inclusive a média, que não têm como se defender de seus efeitos.
Até meados da década de 1990, quando se iniciou, no governo Itamar Franco, a implantação do Plano Real, consolidado no governo Fernando Henrique, a inflação era inteiramente descontrolada. Preços que valiam pela manhã já eram outros na hora do almoço e outros ainda à noite. Supermercados, em especial, tinham equipes noturnas para a troca das etiquetas de preços nas mercadorias. O desgoverno era tanto que o ex-ministro Delfim Neto brincava dizendo que pelo menos a passagem de ônibus era segura. Você pegava num preço no início da viagem e ele era o mesmo ao fim. No mais ninguém sabia quando o preço mudaria. Superamos este problema e a moeda acabou se consolidando ainda mais no governo Lula, permitindo o desenvolvimento que atingimos nos últimos anos. Mas acabamos vítimas deste desenvolvimento.
Crescemos acima do que poderíamos ter crescido. Tivemos um desenvolvimento baseado no consumo e não nos preocupamos com a poupança interna, com os investimentos em nossa infraestrutura. Hoje não temos como crescer acima de 5%. Estamos com a capacidade de atendimento da demanda saturada. Demanda maior que oferta, igual à inflação, dizem os economistas. Bem, mas o problema não é apenas este. O governo Lula gastou acima do que podia e agora a presidente Dilma Rousseff tem que controlar os gastos e investimentos. Criou despesas fixas que precisam ser cumpridas. Para isso o governo se financia pagando juros. Juros altos atrai capital especulativo que aumenta a reserva de moeda, que sobrevaloriza o real, facilitando a importação que movimenta o consumo.
Em compensação, nossos produtos ficam mais caros em dólares e por isso aumentam as dificuldades de exportar. Por isso somos fortes, e muito fortes, em exportação de commodities – produtos agrícolas, minerais – que estão com o consumo elevado no mundo. Somos ainda exportadores de natureza, como diz o ministro Pimentel, enquanto perdemos espaço no mercado internacional para nossos produtos industrializados. Mas apesar de todos estes problemas, ainda estamos com um comércio bastante aquecido, embora em ligeira queda mensal. É a este aquecimento que o governo atribui a culpa do aumento da inflação.
Esta, segundo os economistas, é apenas uma maneira fácil de não assumir sua culpa de não poder cortar na carne, diminuindo seus gastos, especialmente com pessoal. Como não sou especialista, apenas assisto aos debates, mas com enorme preocupação de ver que, no nosso dia a dia, qualquer que seja o motivo, a inflação vai fincando suas raízes. Já virou assunto de todas as rodas, independentemente de classe social. Isto significa que estamos próximos do que os antigos especialistas diziam ser a inflação psicológica. O povo acredita que ela vai subir e tenta se proteger provocando, com isto, a alta dos preços. É aí que está o perigo da indexação, palavra de difícil compreensão, mas que nós brasileiros sentimos na pele durante anos. Quando até o Movimento das Donas de Casa começa a dar dicas de como se proteger da inflação é porque a situação está fugindo do controle. Que Deus nos proteja.
04 19:23:27/05/2011
Artigo - Circo eleitoreiro
Um grande empresário mineiro, que resolveu ser político e se meteu em grandes trapalhadas, dizia que mulher precisa de nove meses de gestação para ter uma criança. Se juntarmos nove mulheres, dizia ele, não teremos uma criança em um mês. Falava isto a respeito de prazo de execução de obras. Para ele, toda obra tem um prazo e de nada adianta juntar mais gente e recursos que pouco se conseguirá apressar a execução. Falo nisso apenas para entrar num assunto que é recorrente, mas que fica mais atual a cada dia e que, por isso mesmo, nunca é demais chamar a atenção das autoridades sobre ele, assim como volta e meia falo da impunidade que ainda grassa neste país.
Estou falando da situação em que se encontram nossos aeroportos. Não estou abordando o assunto por causa da Copa de 2014 nem das Olimpíadas de 2016, embora o Brasil tenha um compromisso com o mundo e o prazo para cumpri-lo esteja ficando mais exíguo o que nos coloca diante da realidade de que não vamos conseguir. Mas nosso problema é o hoje. Com a inclusão social provocada pela economia nos últimos 10 anos o povo passou a viajar mais de avião e desta forma os nossos aeroportos estão saturados e o governo federal – no caso a Infraero – não tomou as providencias necessárias para ampliar e modernizar os aeroportos.
Dizem mesmo que o de Guarulhos, em São Paulo, é considerado um dos piores do mundo. Na lista cabe ainda o do Galeão e por que não dizer do nosso Confins. Diante desta realidade a gente chega à conclusão de que a solução será a privatização ou concessão dos aeroportos como aconteceu com algumas rodovias – principalmente em São Paulo e Rio – que ficaram excelentes nas mãos da iniciativa privada. Por que não fazer o mesmo com os aeroportos? É um assunto que a presidente Dilma Rousseff já colocou na sua agenda, mas que precisa ser prioritário também para quem está abaixo, operando e comandando o processo. É preciso agilizar os procedimentos, caso contrário a burocracia, tão ao gosto de nossos servidores, vão inviabilizar a transferência. Para não fugir ao padrão de nossa infraestrutura, é bom lembrar que as rodovias que estão caindo aos pedaços, como bem atestou o nosso diretor Gustavo Cesar de Oliveira em suas andanças pela região de Teófilo Otoni, Almenara etc. Outro exemplo é a ponte sobre o rio das Velhas no que poderia ter provocado uma tragédia se ruísse com ônibus, caminhões e automóveis passando na hora.
Neste caso a diretoria do Dnit deveria ter sido demitida na hora, pois foi falta de fiscalização do órgão. Num país que transporta suas riquezas por rodovias, e que assiste ao aumento de sua frota, não é possível que continuem sem conservação. Um verdadeiro absurdo: o que anda fazendo o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento? Outro assunto para o qual chamo a atenção é o descuido com as regiões atingidas por tragédias como a do início do ano no Rio de Janeiro, onde morreram mais de 3 mil pessoas – muitas ate hoje desaparecidas – com as chuvas que caíram na região serrana. Houve todo aquele estardalhaço e não se soube mais das providências que deveriam ser adotadas.
Há pouco mais de uma semana o apresentador Luciano Huck, em seu programa de sábado na Rede Globo, doou casa a uma sobrevivente, num gesto isolado e humanista. Mas não se tem notícias do que vem sendo feito. A catástrofe do Rio foi em janeiro e os governos federal, estadual e municipal já deveriam ter tomado providências para minorar o sofrimento das famílias sobreviventes já que milhares ficaram sem moradia. São três fatos em que o governo federal deveria estar mais presente – os aeroportos, as rodovias e os sobreviventes das enchentes no Rio de Janeiro. Acredito, sinceramente, que a presidente Dilma Rousseff esteja preocupada em solucioná-los.
25 16:56:08/04/2011
Artigo - Alvos errados
Vamos, com certeza, para o plebiscito. O povo será chamado novamente a dar uma solução ao problema que as autoridades não conseguem enfrentar. No Brasil temos sempre uma lei à disposição para esconder a incompetência estatal. Se não dá para controlar a entrada de armas ilegais no país, se não se consegue tomar as armas de quem as usa para praticar crimes, simples, cria-se uma lei para impedir a sua venda. Como se isto fosse solucionar algo. Quando disse na abertura deste comentário que estamos indo para um plebiscito, é pela convicção de que dificilmente se conseguirá impedir a consumação da insanidade de sua convocação. E é impossível por uma única razão. O Congresso não perderá esta oportunidade de uma comoção nacional, provocada pelo brutal assassinato de uma dezena de crianças para mostrar serviço.
Vai aproveitar a oportunidade para tentar se redimir dos inúmeros desserviços que vem prestando ao país pelo envolvimento de muitos de seus membros em corrupção. Pela omissão nos debates do que é realmente importante para a população. Abre-se a discussão, com o apoio do governo, diga-se, e desvia-se a atenção do povo para as mazelas. Já foi assim com a reforma do Código de Processo Penal, que ficou na periferia dos problemas. Não se pode nem mesmo dar ao Congresso, e ao Senado, em especial, onde o assunto começou a ser debatido, o crédito do emocional. Não estão agindo movidos pela emoção. Agem com esperteza política, isto sim. Mas se querem discutir, bem que poderiam começar apresentando à sociedade uma estatística dos crimes, apontando quantos são os praticados por cidadãos que compraram legalmente suas armas para se defenderem, seja por viajarem muito, seja por morarem em lugares distantes, seja simplesmente por se sentirem inseguro.
Aí dirão que o problema não é este tipo de cidadão. O problema é que este cidadão acaba sendo roubado e a arma vai para o crime. Ou então que, armado, ele pode se sentir tentado à violência. No primeiro caso é a reafirmação da incapacidade do estado de prover a segurança dos cidadãos. No segundo, mera suposição acadêmica. Mas já que estamos no campo dos argumentos simplórios, vou apresentar um. Imaginem se a criança que, ferida, conseguiu chamar a polícia, não tivesse encontrado policiais que, por acaso, faziam blitz próximo à escola. Quantos mais teriam morrido, pois, desarmado, certamente nenhum outro cidadão que estivesse por ali, enfrentaria o psicopata. Armado, com uma arma legal, e com conhecimento mínimo de seu uso, que é o que se deve exigir, alguém poderia ter enfrentado o assassino até mesmo antes de a polícia chegar. Este é apenas um argumento simplório para justificar a defesa de uma tese. Num leigo é até admissível, mas não pode ser aceito quando apresentado por pessoas experientes, gente que fez da tarefa de legislar, de representar o povo, uma profissão. Das mais rendosas, diga-se.
Antes que cheguemos à extrema demagogia de realizar mais um plebiscito sobre assunto já posto à sociedade, que deu sua resposta, é preciso debater, analisar em profundidade o assunto. O episódio do Rio, por mais lamentável que seja, e é mesmo, não pode servir de exemplo. Lá a ação foi de um psicopata, disposto a matar e depois morrer, portanto incontrolável. É bom pensar bem para não fazermos mais uma bobagem jurídica. Arma legal não mata. Se mata, mata muito pouco. Pior são as ilegais que o estado não sabe ou não tenha estrutura para combater. Melhor então que o Congresso se debruce sobre este problema em vez de aprovar lei que vai apenas tornar ilegal uma atividade que não vai acabar. Vai apenas cair na clandestinidade. Alguém tem dúvidas de que é isto que vai acontecer?
06 14:51:57/04/2011
Artigo - Da vida para a história
Conheci o ex-presidente José Alencar Gomes da Silva e sua mulher Mariza por volta de 1970, pouco depois de chegar a Belo Horizonte, apresentado pelo meu saudoso amigo e ex-governador Ozanam Coelho. Nesta época, vindo de Ubá com a família, José Alencar não demonstrava que iria entrar na política, mas tinha entre seus amigos, José Augusto, que foi senador, e Itamar Franco. Como empresário, José Alencar seguia uma trajetória de sucesso com a sua Wembley Roupas, uma loja de varejo que marcou época, vendendo o que era produzido na confecção de Ubá. Depois teve hotel com o mesmo nome. Consolidado como empresário, Alencar tornou-se sócio do montes-clarense Luís de Paula Ferreira que fundara, em Montes Claros, a Coteminas, que se transformou numa das maiores empresas têxteis do país. A expansão da Coteminas obrigou a transferência de seu comando para São Paulo, trocando Minas pelo estado vizinho.
O que era uma empresa transformou-se num grupo empresarial, do qual Alencar entregou o comando ao seu filho Josué Gomes da Silva. Administrador moderno, Josué deu nova dinâmica ao grupo abrindo assim espaço para que seu pai realizasse o sonho de entrar para a vida pública, deixando de ser apenas amigo de políticos para se tornar um deles. Antes da política partidária ele teve intensa participação em entidades classistas. Em 1979, estimulado por um grupo liderado pelo jovem empresário Paulo Roberto Brandão, disputou a presidência da Associação Comercial de Minas, mas foi derrotado por Francisco Guilherme Gonçalves, candidato apoiado pelo grupo que comandava a entidade e que teve 50 votos no conselho diretor, contra apenas 15 dados a Alencar. Um pouco decepcionado, mas como grande empresário, aceitou o convite e foi para a Fiemg, elegendo-se em 1989 presidente da entidade. Ali começou sua caminhada para a política. Em 1994 candidatou-se ao governo de Minas. Nesta época, conversando com ele, tentei convencê-lo a adiar o projeto. Ponderei que, antes de ser candidato ao governo, deveria, como dizia Ozanam Coelho, sargentear, ou seja, candidatar-se primeiro ao Legislativo. Não gostou muito da minha conversa, pois mostrara que ele iria apenas gastar dinheiro – dizem que na época foram 40 milhões – e que não se elegeria. Acertei na minha análise, mas ele ficou algum tempo sem falar comigo.
Na eleição seguinte, candidatou-se ao Senado apoiado por Itamar Franco e ganhou a eleição. Como senador é que virou o vice de Lula que, ao ser apresentado a ele, ficou encantado com o seu futuro companheiro de chapa. Hoje ninguém tem dúvidas quanto a importância do empresário e político mineiro na vitória do petista. José Alencar foi o grande fiador de Lula junto às classes produtoras, quebrando o gelo e a desconfiança mútua. Quatro meses antes da eleição de 2002, fui visitá-lo no escritório quando ele me convenceu a votar em Lula, assim como a meu filho Gustavo Cesar que me acompanhava na visita. Durante o encontro, o candidato Lula ligou para seu companheiro de chapa que lhe disse que naquele momento recebia a visita de um novo eleitor, jornalista de Belo Horizonte. Não me arrependi em nenhum instante de ter votado em Lula nas duas vezes, na última convencido por Walfrido dos Mares Guia e pelo hoje ministro Fernando Pimentel, ambos admiradores confessos do ex-presidente.
Mas voltando um pouco no tempo, registro um fato que, penso, foi importante na vida empresarial de Alencar. Fui eu que o apresentei a Cláudio Goulart Pessoa, dono de uma grande corretora de valores no Rio, a Fator, que foi a responsável pelo lançamento das ações da Coteminas na Bolsa, fato sem dúvida fundamental para o crescimento da empresa. José Alencar hoje já é um nome na nossa história empresarial e política. Tornou-se exemplo de fé, obstinação e coragem principalmente em sua luta contra o câncer, sensibilizando todo o país. Para finalizar, registre-se que ele tinha alguns fiéis amigos e colaboradores como Honório J. Carneiro e Adriano Silva, que nos últimos anos era seu fiel escudeiro e companheiro de todas as horas.
21 16:08:56/03/2011
Artigo - Energia de risco
A tragédia do Japão expôs nossa fragilidade diante da natureza. E mesmo assim estamos constantemente desafiando o que não conhecemos. Imaginávamos que o homem alcançara o domínio da tecnologia da produção de energia atômica, mas descobrimos agora que somos incapazes de controlar os problemas e os riscos que envolvem esta produção. Somos impotentes diante da energia, especialmente se ela é produzida pela natureza. A humanidade, e não apenas o Japão ou alguns outros países, está diante do dilema de seguir ou não utilizando a energia que sai dos reatores atômicos.
Somos hoje absolutamente dependentes da energia, presente cada dia mais na nossa vida. Criamos dependência na ânsia do consumismo. Energia, seja qual for a sua forma de produção, é essencial, cada dia em maior quantidade, para nossa civilização. Pois esta é uma questão que teremos que enfrentar. Impossível postergar esta discussão, impossível deixar o debate para gerações futuras. Timidamente ainda, há grupos de discussões alertando que o debate sobre energia não pode continuar se dando apenas pelo viés do aumento da produção. É compreensível que numa sociedade tão dependente de um bem, a preocupação fique centrada na forma de aumentar sua oferta. Mas é preciso que se inicie logo, formas de se estabelecer uma nova cultura na qual o eixo da discussão passe a ser a redução do consumo.
Quando nos anos de 1970, o Brasil da era militar decidiu construir usinas nucleares, sem dialogar com a sociedade, houve quem protestasse, que alertasse para os riscos. Mas houve também, mesmo na comunidade acadêmica, quem defendesse o projeto, argumentando que, ao contrário do que se dizia, a energia nuclear representava menos dano ao meio ambiente do que as outras formas de produção de energia, como, por exemplo as usinas hidrelétricas. Ainda hoje, com o mundo assustado e o Japão, país que domina muito mais do que nós a energia atômica, até por ter sido a primeira vítima dela, há os que defendem nossas usinas nucleares, dizendo que são absolutamente seguras. A mãe natureza já demonstrou que, para ela, não há nada seguro. E é este o dilema que o mundo passou a enfrentar com a catástrofe japonesa. Vale a pena o risco da produção ou melhor será uma revisão em nossos conceitos de vida. Um freio no consumismo desenfreado que, independentemente do que é atômico, está levando nosso planeta à destruição? Esta é uma discussão da qual não podemos nos excluir.
É verdade que em matéria de energia somos privilegiados. Temos condições de produzir qualquer uma das conhecidas hoje, mesmo a nuclear, em abundância. Somos líderes mundiais na produção da energia verde. Desenvolvemos tecnologia própria para tirar da terra, de diferentes plantas, a energia de nossos veículos. Somos, potencialmente, um dos maiores produtores mundiais de petróleo, graças ao pré-sal. Melhor, ninguém supera o Brasil em tecnologia de exploração do petróleo em águas profundas. Mas, se isto nos torna independentes, não nos exclui dos riscos de um desastre nuclear.
Que o Brasil, potência energética – e esta é uma das especialidades de nossa presidente – puxe, se possível, lidere, um debate mundial pelo fim da energia nuclear entre nós. A começar pela revisão de nosso próprio projeto de construção de quatro novas usinas até 2030. Pelo ritmo de nosso crescimento econômico, sabemos todos que vamos precisar de mais e mais energia. Mas, se queremos ser grandes, se queremos garantir o futuro das próximas gerações, temos que aprender não apenas produzir, mas economizar energia. Não temos o direito de colocar o mundo em perigo. Mais do que já está. Por fim, nossa solidariedade e nossa admiração ao povo do Império do Sol.
15 20:20:02/03/2011
Artigo - Circo eleitoreiro
Bom, agora não tem mais desculpas. Diz a lenda que o país só começa a funcionar após o Carnaval. Pois então está na hora de trabalhar e, mais que isto, de decidir. O Carnaval ficou para trás e o monte de problemas a serem resolvidos está logo à frente. Dilma, avaliam todos, até mesmo a sempre contra grande imprensa, vai indo bem. Há uma crítica aqui, outra ali, mais relacionada com o seu padrinho Lula – que nunca foi bem aceito pelos veículos conservadores, a despeito de sua aprovação popular – do que propriamente com a sua atuação.
Exatamente por estar, até aqui, se saindo bem, aumenta a confiança do empresariado e da população de que poderemos avançar, e muito, nestes anos. Em relação ao novo governo havia uma dúvida quanto a sua capacidade de agir politicamente. A votação do novo salário mínimo, quando a base governista mostrou sua força, deixou a certeza de que a presidente está preparada também para o embate político. É neste campo, aliás, que Dilma tem, para surpresa geral, se mostrado mais firme. Não tem a habilidade de seu padrinho o que, em certa medida, é até bom para o país, mas tem firmeza e determinação que levam à liderança.
A presidente, em seus primeiros dias de governo, adotou posturas que, com certeza, terão reflexos positivos em todo o seu governo. Foi especialmente firme com os fisiologistas e por isto impediu que importantes áreas do governo ficassem nas mãos de notórios aproveitadores. Como exemplo, Furnas, para onde foi Flávio Decat, seu novo presidente. E na Eletrobras, também um mineiro, José da Costa Carvalho Neto, o Costinha, um expert do assunto. Até Lula andou levando esbarrões dela. Alguns de seus preferidos acabaram ficando fora da equipe e algumas medidas foram tomadas contra a vontade do padrinho. Seria a criatura se rebelando contra o criador?
Absolutamente não, apesar dos intrigantes de plantão. Os mais próximos à presidente garantem que ela também tem sintonia fina com o ex-presidente. Apenas não abre mão de ter suas próprias ideias e conceitos sobre pessoas e sobre o que fazer. Mas, voltando à questão do enfrentamento de nossos problemas, passado o Carnaval, é hora de a presidente liderar o país rumo às reformas necessárias. Que ela não se engane, precisamos agir logo para criarmos a sustentação jurídica de nosso desenvolvimento. Sem reformas logo estaremos, se já não estamos, no limite de nossa capacidade. A prática ensina que as rupturas com as chamadas zonas de conforto de governos e grupos privados têm que ser feitas no início de governo, quando a liderança está sem arranhões. Passado este período de encantamento tudo fica mais difícil.
A hora é agora. Se estamos em cima da hora quanto às mudanças institucionais, o que dizer então do enfrentamento de nossos problemas crônicos? Neste terreno estamos atrasados há décadas. Nossa infraestrutura de transportes – rodoviária, marítima, aérea – está inteiramente defasada, problema que se acentua quanto mais crescemos e nos inserimos como nação desenvolvida. Ainda temos pruridos ideológicos que não nos permitem realizar programas consistentes de Parcerias Público Privada ou mesmo de concessões para a melhoria de nossas rodovias e aeroportos. Não avançamos na qualidade da educação, embora estejamos zerando oferta e demanda de vagas. Não melhoramos a saúde e ainda estamos distante de fazê-lo. Transporte público entre nós é utopia.
Agora que o Carnaval passou, precisamos tirar a fantasia e enfrentarmos a realidade de que, nunca antes na história deste país, houve tanta pressa na solução de problemas que aí estão há décadas. Alguns há mais de século. Não se esqueçam de que em 2013 teremos a Copa das Confederações. Em 2014 a Copa do Mundo. Em 2016 as Olimpíadas e o mundo estará de olho em nós. Mas não se esqueçam de que diariamente centenas morrem nas estradas. Milhares se irritam em aeroportos e que milhares de empregos deixam de ser criados por não termos competitividade no mercado internacional. Passado o Carnaval, é hora de nos apressarmos. Antes que venha a Semana Santa, as festas juninas, as eleições municipais, o Natal...
23 19:49:36/02/2011
Artigo - Quanta burrocracia
As regras são criadas para serem cumpridas. Quanto a isso não há dúvidas. O problema é quando a regra atende mais aos interesses dos burocratas do que de todo o país. Por burocracia, por falta de regras mais claras, vamos vivendo agora a angústia de não conseguir nos anteciparmos ao futuro e, mais que isso, de não sermos capazes nem mesmo de acompanhar o presente. Esta incapacidade vai nos deixando para trás. Diariamente nos defrontamos com notícias de que esta ou aquela obra será paralisada, que licitações estão suspensas por problemas de edital ou ambiental. E assim vamos nós nos afastando do futuro, cerceando nosso próprio crescimento.
Fora as questões legais, há ainda o corporativismo e o ideologismo. Juntos, os três têm sido fatores impeditivos do desenvolvimento de nossa estrutura no setor aeroportuário, hoje vital para o crescimento da economia de qualquer país e, mais especialmente, de quem, como nós, quer realizar a Copa do Mundo. Com tanta demanda, ainda discutimos o que fazer com a Infraero, uma estatal que até aqui tem sido incapaz de dar soluções e que, infelizmente, é figurinha fácil em noticiários sobre erros e corrupção.
A legislação é pouco clara, parte do princípio de que todos são desonestos, impede a realização das obras necessárias em aeroportos importantes, entre eles o nosso Internacional Tancredo Neves, em Confins, que teve a licitação de suas obras de melhoria e expansão suspensa pelo Tribunal de Contas da União por suspeita de fraude ou erro. Por outro lado, o ideologismo e o corporativismo impedem a concessão dos aeroportos, certamente a única solução possível para que o necessário seja feito no tempo preciso. É de se notar que, no Brasil, tudo o que foi feito no modal aéreo, em relação a passageiro e cargas, em sete décadas, dobrou nos últimos cinco anos. E dobrará novamente em 10, seguindo tendência mundial de transportes de componentes e bens de alta tecnologia por avião.
Desde 2003, quando, contra a opinião de muitos, Aécio Neves resolveu tirar da Pampulha os pousos e decolagens de maior porte, deixando apenas as operações regionais, que Minas vem preparando o Tancredo Neves para ser, num futuro próximo, o principal portão de entrada, de passageiros e cargas, no Brasil. Além das obras para a melhoria do acesso ao aeroporto, o governo estadual agiu para atrair investimentos ligados à aviação para a área, como a linha de manutenção da Gol, o Centro de Aperfeiçoamento da FAB, o Centro de Capacitação Aeroespecial de Minas Gerais e ainda está implantando uma área industrial, onde se instalarão indústrias de tecnologia de ponta, que usam intensivamente o modal aéreo para o transporte de peças e equipamentos prontos ou semiprontos.
Pouca gente sabe, mas o governo mineiro vem trabalhando sério, moldando todo o planejamento do aeroporto para os próximos 30 anos. Com a concordância da Infraero contratou em Cingapura, de uma empresa altamente especializada, o projeto para o terminal 2 do aeroporto, que precisa ser realizado urgentemente pois, antes do previsto, o terminal 1 já apresenta sinais de saturação. Todo este esforço para melhorar a infraestrutura do Aeroporto Internacional Tancredo Neves tem, até aqui, apresentado poucos resultados. O governador Anastasia tem buscado apoio direto da presidente Dilma para turbinar as obras do aeroporto. Se conseguir, será ótimo para Minas. Só que essa não pode ser uma ação isolada. O Brasil precisa vencer logo suas amarras. Sem isso, perderemos a oportunidade de alçarmos o voo da águia. Levantarem, mais uma vez, para um voo de galinha.
11 16:41:03/02/2011
Artigo - Mudança de estilo
Pode ser um estilo, pode ser uma estratégia para desligar o governo da imagem de Lula, mas que os primeiros 30 dias do governo Dilma foram o contrário de seu antecessor, ninguém tem dúvida. A presidente vem mantendo postura discreta, com adoção de medidas muito mais de cunho administrativo, como aliás foi apresentada na campanha, do que político e, mais que isto, um conveniente silêncio. Desde que se elegeu, a presidente tem falado pouco. Isto é, tem falado pouco em público, mas tem conversado bastante.
As entrevistas e os discursos, ao contrário dos tempos de Lula, têm sido poucos. Daquelas tumultuadas entrevistas em pé, com dezenas de jornalistas perguntando ao mesmo tempo, ela só participou das que aconteceram no Rio de Janeiro, logo após a tragédia da região serrana. No mais foram entrevistas para correspondentes estrangeiros e uma ou outra conversa com grupos de jornalistas, sem o caráter de entrevista.
Este silêncio tem sido providencial e, certamente, benéfico. Com ele Dilma Rousseff tem angariado mais respeito como política e administradora e alimentado a figura de durona, intransigente com erros e abusos. O que tem vazado de informações sobre o dia a dia presidencial enfatiza isto, como o puxão de orelha nos ministros que gostam de usar jatinhos para ir em casa nos finais de semana, ou nos que fazem quatro horas de almoço ou chegam tarde aos ministérios e até naqueles auxiliares que, para se valorizarem, adoram entrar no gabinete falando ao celular.
Mas algumas decisões da presidente marcam, claramente, uma postura diferente do antecessor em questões mais ideológicas. Ela já sinalizou, por exemplo, que não será tão complacente, como Lula, com os regimes ditatoriais, o que terá reflexos na política externa. Internamente a presidente já sinalizou aos sindicalistas que as relações com o governo serão um pouco mais distantes.
A resposta que deu sobre o reajuste do mínimo mostra isto. Há limites para o chamado diálogo com os trabalhadores. Dilma mostrou também que sabe se impor perante a comunidade internacional. O respeito ao Brasil de Lula será o mesmo, ou talvez maior, com o Brasil de Dilma. Tanto que o presidente Barack Obama já anunciou, em discurso, que virá a Brasília para discutir as relações bilaterais, reconhecendo a importância do país no mundo e em especial na América Latina.
Também foi estratégica a primeira viagem da presidente a um país amigo. Sua ida à Argentina indica mudanças nas relações preferenciais com os nossos vizinhos. Dilma foi se encontrar com Cristina Kirchner, acabando com o privilégio da interlocução dos ruidosos bolivarianos, Hugo Chávez à frente. Pelo que mostrou até aqui, a presidente pretende realizar um governo de menos marketing e mais discrição. Será um ganho de qualidade, sem dúvidas, ainda mais num momento em que o mundo sente, bem próximo ao rosto, o desagradável hálito das crises econômicas.
Que ninguém duvide daquilo que, neste mesmo espaço, foi anunciado. Dilma vai surpreender a todos, principalmente a oposição. Seu estilo de comando será firme, sem demagogias, e de respostas rápidas. Em pouco tempo ela se mostrará uma candidata com alto potencial para 2014. Será um bom problema para o PT que terá o privilégio de contar com dois candidatos imbatíveis daqui a quatro anos.
17 15:00:56/01/2011
Artigo - Nova (próspera) década
Estamos em 2011, a segunda década de um século – e de um milênio – que se mostra favorável ao Brasil. Com as bases implantadas nos anos finais do século e do milênio passados, começamos a criar um país novo que tem dois símbolos: Lula, o primeiro operário a chegar à Presidência e Dilma Rousseff, a primeira mulher a comandar o país. São os sinais de um novo tempo.
Da presidente Dilma o que se espera é que faça um governo de transformações e que coloque seu nome na história não apenas como a primeira mulher a se eleger presidente, mas como governante que soube conduzir o país rumo ao seu pleno desenvolvimento. Capacidade gerencial, sensibilidade já demonstrou ter, o que parece ainda faltar nela é o traquejo político. O que pode ser aperfeiçoado na prática.
A presidente assume com o ministério possível. Não é o ideal, mas muitas vezes as composições político-eleitorais levam à necessidade de acomodar correntes o que, normalmente significa “engolir sapos”. No grupo há alguns deles que, em situação normal, ela não aceitaria digerir. Mas Dilma teve a sabedoria e a prudência de preservar o núcleo central da equipe, colocando nos cargos mais estratégicos gente de sua confiança.
Deste núcleo fazem parte Antônio Pallocci, que se não tivesse sido atingido por denúncias seria o candidato de Lula. Guido Mantega, Paulo Bernardo e Fernando Pimentel, o único representante de Minas no primeiro escalão que, além de ser um político e político competente, é amigo da presidente, desde a juventude. Há outros nomes, como de Alexandre Tombini, presidente do BC, que serão agregados ao núcleo central, mas que, ainda, não são da confiança total da presidente.
O novo governo começa com a confiança dos brasileiros. Dilma recebe um país sobre os trilhos, mas que, para ganhar velocidade, precisa de muita coisa ainda. Seu antecessor e padrinho não foi o descobridor ou o inventor do Brasil, como apregoam petistas, mas, inegavelmente, fez grandes avanços em cima de uma estrutura que encontrou sob o risco de paralisação. Lula teve o mérito de entender que lá em 2003, não poderíamos correr riscos. Ou avançávamos sobre o que tínhamos conseguido ou haveria um retrocesso desastroso.
Pois avançamos. E tanto que Lula terminou seu governo com mais de oitenta por cento de aprovação popular. Certamente para alcançar estes números, teve que sacrificar algo. As reformas – política, tributária, previdenciária entre outras – acabaram sendo sacrificadas para que outros avanços fossem possíveis. Dilma não terá como fazer o mesmo. Estamos perto de atingir o estrangulamento institucional. Sem mudanças não haverá como crescer mais.
Há ainda outro complicador, este atingindo nossa infraestrutura. Sem portos, ferrovias, estradas de boa qualidade, saúde e educação, não passaremos do limite a que chegamos. O Brasil precisa investir na sua infraestrutura, na melhoria da educação – aumentar vagas nas escolas não basta, é preciso qualidade – e da saúde. E não fará isto sem as reformas.
Para Dilma, tudo é urgente. Então este não é o melhor momento para se iniciar uma discussão sobre sucessões. Os políticos já falam em eleições municipais no ano que vem, preparativas das eleições de 2014. A hora é de responsabilidade para não corrermos o risco de sermos atropelados por uma nova crise econômica mundial que não se cansa de emitir sinais. Portanto, presidente, reformas já.
09 15:22:53/12/2010
Artigo - Terreno preparado
Vai chegando ao fim um ano muito importante para o brasileiro. Em 2010 conseguimos nos consolidar como uma das maiores economias mundiais. Bola da vez, para usar expressão do mercado que indica ser um país preferido para investimentos. Politicamente demos mais uma demonstração de maturidade democrática, realizando uma eleição cujo resultado foi a expressão da vontade popular. E o povo quis que, pela primeira vez em sua história, uma mulher fosse escolhida para presidir o Brasil.
A eleição de Dilma Rousseff é um marco histórico. Ela chega ao cargo máximo da política nacional pelas mãos de Lula, outro símbolo da ascensão social no Brasil. Lula e Dilma representam, para nós, a mudança, a quebra de modelos e de preconceitos. Nossa primeira presidente recebe de seu antecessor e padrinho político, um país mais justo, embora ainda injusto. Sua ação política provocou uma mudança na face do Brasil, com a inclusão social de milhões de pessoas que, antes, viviam abaixo da linha da pobreza. Gente que passou a ter acesso a direitos naturais como a alimentação, a direito elementares como a dignidade. Gente que transformou sonhos inatingíveis, como a casa própria, em certeza ou esperança real, com o aumento do crédito.
Milhões de brasileiros venceram barreiras e, graças ao emprego, fruto do crescimento econômico, e da melhoria da renda, transformaram-se em consumidores. São pessoas que satisfeitas as necessidades básicas, podem se dar ao direito de realização de sonhos de consumo, como possuir um carro, viajar de avião, até mesmo conhecer o exterior.
Foi relâmpago o processo de inclusão social. Em menos de oito anos milhões de brasileiros simplesmente passaram a viver. A consumir. Nossas cidades, e só para ficarmos nas maiores, São Paulo, Rio, Salvador, Fortaleza, Belo Horizonte são uma mostra disto. O trânsito caótico mostra, resultado do espetacular crescimento das vendas de automóveis, a nova face do Brasil das oportunidades, do desenvolvimento e da inclusão social e econômica.
Mostra também um país ainda muito carente de investimentos em infraestrutura. A presidente Dilma, apesar do muito que avançamos nos últimos anos, terá enormes desafios a vencer. Há sinais claros de saturação de nossas estruturas. Ameaçando nosso crescimento futuro. Precisamos de melhores estradas – as que temos são de 50 anos atrás – de melhor estrutura viária urbana, de sistemas mais modernos de transportes urbanos, de aeroportos, portos, ferrovias. Precisamos de investimentos em educação, saneamento, saúde, lazer.
Os recentes episódios nos morros do Rio de Janeiro deixaram patentes o mal que fazem ao povo os políticos irresponsáveis, omissos. A violência carioca tem alguma coisa de exclusão social, mas muito de omissão de governos, de leis que estimulam a impunidade, de governantes descompromissados. Quando secretário de Segurança do ex-governador Hélio Garcia, o delegado José Rezende dizia sempre que “bandido não pode ficar famoso”, ou seja, o estado precisa agir antes que ele passe a dominar uma região.
Que o Rio de Janeiro sirva de lição aos nossos dirigentes. Que a presidente Dilma possa agir com firmeza e rapidez para promover as reformas necessárias. Tudo aqui é urgente. Investimentos, reformas política, tributária, previdenciária, partidária, eleitoral. Reformas nas leis penais, processuais, trabalhistas. Redução do custo Brasil. Lula deu o rumo. Que a presidente Dilma Rousseff dê ao país a velocidade.
23 00:12:29/11/2010
Artigo - A primeira presidente
O ano está acabando e já no próximo mês o Brasil será governado, pela primeira vez, por uma mulher. Dilma Rousseff, eleita presidente por obra e graça de Lula, que está terminando seu segundo mandato com os mais altos índices de aprovação de nossa história política. Foi ele quem decidiu apostar em sua então ministra, por ver em Dilma as qualidades gerenciais e de liderança necessárias a um bom governante. Fez a opção por ela e convenceu o seu PT a apoiá-la, não sem antes vencer a resistência de outros filiados que também postulavam o apoio presidencial, mas sem demonstrar a capacidade da escolhida.
Foi uma disputa dura, num nível de agressividade, como nunca se vira aqui. Mas era uma eleição que deveria ter sido definida ainda no primeiro turno. Isto só não aconteceu por causa de Marina Silva, que foi o porto dos que não se dispuseram, no primeiro turno, a votar em Dilma nem em Serra. Com 20 milhões de votos a candidata verde acabou provocando o segundo turno. Decidida a eleição, nossa primeira presidente assume o cargo em 1º de janeiro, para um mandato de quatro anos, sob a desconfiança de muitos com o que poderá ocorrer no país sob seu comando. Pessoalmente penso que ela terá um desempenho que superará expectativas. Dilma, mineira de Belo Horizonte, com passagem no Rio Grande do Sul, é uma mulher inteligente, que ocupou por mérito próprio os espaços que lhe foram abertos, até chegar à Presidência, sem nunca ter disputado uma eleição, com o apoio de Lula. Assume num grande momento do país, resultado do ótimo trabalho de seu antecessor.
Queiram ou não, é natural que ela almeje um segundo mandato por meio de reeleição. Mas para alcançar um segundo mandato, como tiveram Fernando Henrique e Lula, ela terá que fazer um bom governo, sem o quê não será reconduzida pelo povo. Agora, em dezembro, ela deverá formar seu ministério, compondo com as legendas que a apoiaram, em especial o PMDB. A equipe, com certeza, será formada por pessoas que atendam o que a presidente pensa para o Brasil nos próximos quatro anos.
Ela sabe, perfeitamente, que já não somos o país do futuro. Somos uma realidade do presente, um país que tem voz no mundo, mas que ainda tem problemas de nações subdesenvolvidas. Tanto que um de seus compromissos de campanha foi o de reduzir o número de brasileiros que ainda passam fome. Para isto, teremos que manter e estimular o ritmo do crescimento, investindo em educação, saúde e infraestrutura. Para fazermos aquilo de que necessitamos, é preciso que a presidente realize as tão reclamadas reformas política, tributária e previdenciária. E isto só conseguirá fazer se enviá-las ao Congresso nos seis primeiros meses de governo. Depois será politicamente impossível.
Junto com Dilma, 27 governadores também assumem o mandato em 1º de janeiro. Em Minas, Antonio Anastasia conseguiu a reeleição com uma vitória espetacular, fruto do trabalho de oito anos que desenvolveu junto com Aécio Neves, eleito senador. Anastasia, de quem o mineiro espera muito, é um técnico de altíssimo nível que se tornou político moderno, reconhecido em todo o país. Ainda outro dia, numa palestra que proferiu no Lide – Grupo de Líderes Empresariais, Anastasia impressionou tanto os participantes que um deles, ao meu lado, apontou-o como um futuro presidente do Brasil.
Em tempo: a presidente Dilma Rousseff precisa reavaliar este plano da volta da CPMF. A ideia é rejeitada pelo povo e pelos empresários. O artigo que o presidente da Confederação Nacional da Indústria, Robson Andrade, publicou recentemente no jornal O Globo, retrata o pensamento das classes produtoras sobre o assunto. Melhor será que ela assuma com sua prioridade nas reformas nos primeiros seis meses de governo.
09 14:44:45/11/2010
Artigo - O cargo vai para...
Finda a festa pela vitória, é chegada a hora de o país deixar a presidente eleita cuidar de seu governo. A presidente Dilma precisa ser vista como um fato novo na política brasileira, não por ser a primeira mulher eleita presidente, mas por ser uma técnica que, pela qualidade de seu trabalho de gerenciamento e potencial político, venceu uma eleição que é essencialmente um fato político.
Assim, não é justo querer, nem por especulação, que na formação de sua equipe de trabalho ela recorra a um número maior de mulheres. O critério para a indicação não pode privilegiar o sexo. Deve privilegiar o mérito, a capacidade técnica, que se junta à capacidade política, melhor. Mas dependendo do cargo, é recomendável que se faça a opção pelo preparo técnico para a função.
Os partidos que fizeram parte do arco de apoiamento dos vencedores têm que entender isto. Os analistas e até mesmo figuras respeitáveis do governo, admitem que os próximos anos, especialmente os dois primeiros do novo governo, não serão fáceis. Há sinais de uma nova crise mundial, em função do câmbio, e também de dificuldades internas, pelo ritmo de nosso crescimento, acima de nossa capacidade e por sintomas de bolhas em alguns setores, como o imobiliário, causa aliás da crise de 2008 que se iniciou nos Estados Unidos.
Isto significa que não se pode levar o governo a um desgaste político por conta de cargos. É da essência dos partidos a busca do poder e, quando se alcança, legítimo que se queira exercê-lo, de forma compartilhada, com os parceiros políticos. Legítima é a reivindicação por cargos, ilegítima a pressão por cargo que, pior, normalmente é feita com a indicação de alguém que, no poder, terá como missão principal defender os interesses pessoais de seus padrinhos.
Importante assim que as indicações levem em conta não apenas a competência, tomada genericamente. Há que ser a competência vocacionada para o exercício de uma determinada função. De nada adianta, tomando exemplo extremo apenas para ser mais didático, indicar alguém porque ele é um médico competente, para ser o presidente da Petrobras. Há que se considerar capacidade aplicada ao cargo.
Ação política tem, portanto, um limite. É preciso respeitar-se o poder discricionário da presidente. A ela cabe escolher seus auxiliares, com especial zelo aqueles que desempenharão as missões mais sensíveis, como as áreas econômicas e sociais. Acrescentaríamos aí a área de obras, considerando a extrema necessidade do país de agilizar o desenvolvimento de sua infraestrutura e de se preparar para os três eventos esportivos mundiais: Copa das Confederações, Copa do Mundo e Olimpíadas, nesta ordem, pelo calendário. Para cumprir estas tarefas, dispensa-se a politicagem e louva-se o mérito.
Neste trabalho que se inicia agora é fundamental também que oposição e governo definam bem seus papéis. A oposição precisa entender que foi o povo que a colocou neste cargo e que, por isso, precisa cumpri-lo com dignidade e serenidade, sem que isto signifique abrir mão de sua missão de fiscalizar, denunciar e até mesmo de apoiar as medidas importantes para o povo. Muitas vezes, a oposição é o caminho mais curto para se chegar ao poder.
A presidente Dilma e muito especialmente seus aliados mais radicais precisam compreender que criticar, cobrar é papel da oposição. Mais do que isto, devem entender que oposição não é para ser cooptada. É para ser respeitada, pois mais do que a situação é a oposição que legitima a democracia.
Se todos os atores entenderem bem o papel que deverão desempenhar teremos mais condições de superar dificuldades e continuar avançando.
27 01:44:02/10/2010
Artigo - Lições do pleito
A eleição está chegando ao fim. No domingo, saberemos quem terá a responsabilidade de substituir Lula, que foi presença constante em todas as eleições presidenciais desde 1989. Seu nome sai da urna eleitoral para entrar para a história como o presidente que terminou o mandato com os maiores índices de aprovação do Brasil. Independentemente de quem for o escolhido, a disputa deixa lições e aponta problemas que precisam ser enfrentados imediatamente, caso o país queira uma democracia real, que não seja apenas o ato de votar. O voto é realmente fundamental para a existência da democracia, mas não é o único elemento que a garanta.
O embate do segundo turno foi bem mais duro do que o do primeiro e introduziu um elemento novo no processo eleitoral. A baixaria via internet. Não que a rede mundial não tenha sido utilizada, e mal utilizada, no primeiro turno. Todos os candidatos, indistintamente, utilizaram-se dela não para apresentarem suas propostas, mas para agredir e denunciar os adversários. Agora, no segundo turno, isto foi exacerbado. A internet é sim uma importante ferramenta de campanha. Por ser um espaço ilimitado, ela permite que os candidatos exponham melhor suas ideias e explorem as contradições de seus adversários, até mesmo apresentando gravações e documentos que, nos programas eleitorais, seria impossível mostrar. Mas ela tem o inconveniente do anonimato, arma dos covardes. E que nenhum dos candidatos se apresente como vítima. Todos se utilizaram da ferramenta para denegrir o adversário.
Nem tudo, porém, foi denúncia falsa. Algumas das que foram colocadas na internet são sérias, documentadas, e precisam ser apuradas a fundo pelo Ministério Público, pela polícia. Não podem ser tratadas como simples factóides eleitorais, pois que este é o melhor caminho para desqualificar as denúncias e assegurar a impunidade dos que praticam as falcatruas. É preciso considerar, ou reconsiderar, a questão das pesquisas. Elas desencadearam verdadeira guerra entre os institutos e candidatos. Alguns erros grosseiros foram cometidos nos levantamentos, levando os números ao descrédito e aos ataques dos que deles não gostaram. Um dos mais bombardeados foi o nosso Vox Populi, acusado pelos tucanos de trabalhar para o PT, por causa de uma pesquisa que mostrou o distanciamento de Dilma, em relação a Serra, no segundo turno. O que o Vox mostrou acabou sendo confirmado pelo Datafolha e pelo Ibope e ainda pelo outro mineiro, o DataTempo, que apontou uma grande diferença de Dilma para Serra em Minas.
De qualquer maneira, o tema ficou em aberto. É importante para a democracia brasileira que se discuta o papel das pesquisas no processo eleitoral. Melhor seria se elas fossem apenas para nortear, internamente, as campanhas. Mas isto seria cercear o direito de informação. É preciso se encontrar um meio termo, talvez a fixação de um prazo limite para a sua divulgação, com uma razoável antecedência da votação. Não podemos, no entanto, deixar de considerar que na internet isto seria impossível. Também nós, da área de comunicação, temos sobre o que refletir. As coberturas das eleições precisam ser debatidas. Não que devam ser limitadas mas, certamente, precisam ser mais éticas. E não adianta um candidato dizer que o outro é o beneficiado pela chamada mídia. Há veículos que se prestam a beneficiar qualquer um dos lados. A considerar-se também a linha editorial do veículo que pode levá-lo a tomar partido no processo. Isto é possível, desde que haja transparência neste posicionamento.
Finalmente, os debates. Não tem sentido permanecerem no atual modelo. Não ajudam em nada os eleitores e, objetivamente, nem aos veículos. Os índices de audiências são ridículos. O engessamento das discussões torna os debates maçantes, sem emoção. O resultado é o total desinteresse do eleitor por eles. Apenas o da Globo, por ser o último e por ser na Globo, consegue alguma audiência, mas como os demais não tem capacidade de influenciar eleitores.
Há que se ressaltar que, finalmente, começamos a limpar a política, tirando os “fichas sujas”. Mas precisamos ficar vigilantes. Eles, em proveito próprio, são capazes do inimaginável. Em 2012 tem eleição novamente. Cuidemos, desde já, de aperfeiçoar o processo.
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