Alienado cidadão
Postado em 05/07/2010
Bertolt Brecht, no seu O Analfabeto Político, advertia, já no século passado, que o pior para o país é o analfabeto político, aquele que diz detestar política e que se mostra inteiramente alienado. Com razão, o poeta e dramaturgo alemão atribui a esta ignorância e alienação, a maioria dos problemas sociais, como a prostituição, o alto custo dos alimentos, o menor abandonado. Nos tempos de hoje deve-se acrescentar o problema das drogas, praga arrasadora do que a sociedade tem de mais importante, que é a sua juventude.
É pela alienação do cidadão, que tem no voto não um direito, mas uma obrigação, que vamos assistindo a um processo eleitoral que se inicia carregado de fisiologismo. Para usar uma expressão popular, são verdadeiros cruzamentos de tatu com cobra os acordos partidários que vão sendo costurados. Não há ainda, por parte dos candidatos, e isto em qualquer nível, uma sinalização que seja de vontade de colocação de um projeto de governo.
O debate político não se abriu e, pelo visto, não se abrirá para a colocação das propostas. Costuram-se acordos sobre não se sabe o quê, embora se diga, em público, que eles são programáticos. Não se quer discutir o futuro, procura-se discutir o passado para que as críticas atinjam possíveis fraquezas dos adversários. Justifica-se dizendo que há necessidade de formação de governos de coalizão, quando, na verdade, o que está sendo estruturado é um governo de comunhão de interesses pessoais que, invariavelmente, resultam em escândalos mais à frente. Escândalos sem punições, diga-se.
A omissão da maioria acaba abrindo o caminho para os espertalhões. Gente que, não tendo voto, acaba buscando espaços onde eles não são necessários. A suplência do Senado é, tipicamente, espaço para os espertos. Esta excrescência de nossa estrutura política acaba levando ao Senado quem não tem representatividade, quem não tem voto. Mas, normalmente, tem dinheiro e esperteza suficiente para se assentar no comando de uma legenda e negociar seus minutos no horário gratuito em troca de uma suplência.
Estas são as chamadas jogadas políticas, as demonstrações da capacidade de entendimento de que tanto se vangloriam nossos políticos. Entendimentos que colocam lado a lado, num mesmo palanque, quem não tem qualquer identidade ideológica, inimigos cordiais que, nas próximas eleições, estarão em situações opostas. Situação que não vêm os que, analfabetos políticos, batem no peito para se vangloriar dizendo detestar política.
Pelo comportamento destes, infelizmente maioria, pagamos todos nós. Inclusive eles. Pagamos pelo descompromisso dos governantes com as políticas de segurança pública, cuja falta nos leva à situação calamitosa das drogas. Pela falta de políticas sociais menos simplórias do que a distribuição de benefícios pecuniários. Pela ausência de uma política habitacional, de saneamento, de proteção ambiental de... tanta coisa que ainda nos faltam e com as quais nossos eleitos se comprometem. Mas ainda não iniciamos o processo eleitoral propriamente dito. Por enquanto, apenas eles jogaram o jogo, armaram seus acordos, visíveis e subterrâneos para se apresentarem a nós. Quando isto acontecer, tem que ser a nossa hora de seguir a lição de Bertolt Brechet: “Não aceiteis o que é de hábito como coisa natural” . Enquanto aceitarmos, continuaremos assistindo a ascensão de espertos, de mal-intencionados que se escudam em mandatos para se defenderem de crimes, assegurando a impunidade que infelicita o país.